Outro feminismo é possível

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Por: Amarílis Demartini



Quando o assunto é feminismo, a tendência é que sejam trazidas à tona algumas das práticas propagandeadas ultimamente sob esse rótulo – desde os cartazes e panfletos com “x” no lugar de artigos até os protestos com nudez e performances agressivas. Entre os grupos que perpetram tais ações, estão FEMEN (o qual não durou muito no Brasil, mas continua atuando noutras partes), Marcha das Vadias, coletivos universitários ou partidários. Embora tais grupos tenham suas rivalidades, difiram quanto às estratégias e táticas adotadas e ocupem posições aparentemente opostas no espectro político (que vão desde a direita liberal até a esquerda trotskista e anarquista), muito mais expressivas são suas semelhanças, visto que partilham um mesmo arcabouço teórico proveniente do feminismo igualitário.

Em linhas gerais, o feminismo igualitário defende que os diferentes papéis atribuídos a homens e mulheres na sociedade são meras construções sociais, as quais não se sustentam pelas distinções biológicas entre os sexos. Daí à teoria – ou antes, ideologia – de gênero é um pulo, e a adoção desta também parece ser generalizada entre os grupos do feminismo “mainstream”. A ideologia de gênero afirma que o sexo biológico não deve determinar os comportamentos de alguém ou sua “identidade sexual”, que passa a ser uma categoria de livre escolha e invenção, mutável e, por vezes, simplesmente indefinível para o senso comum. A preferência pelo termo “ideologia” deve-se ao fato de que, embora incontáveis páginas tenham sido escritas na tentativa de reforçar tal conjunto de suposições, experimentos científicos de diversos tipos têm apontado conclusões opostas, como bem demonstrou o comediante e sociólogo norueguês Harald Eia em uma série de documentários chamada Hjenervask (“Lavagem Cerebral”). Além disso, casos concretos onde a ideologia de gênero foi posta à prova resultaram trágicos (basta pesquisar, por exemplo, a história de vida do canadense David Reimer).

Entretanto, muitas entre as ditas feministas responsáveis por tais elaborações parecem pouquíssimo preocupadas com a realidade.  Boa parte delas afirma mesmo que ao invés de dois sexos biológicos existem pelo menos cinco, contando as deformidades congênitas causadoras dos três tipos de hermafroditismo como modalidades de sexo biológico possível. A raridade dos indivíduos portadores destes problemas e as complicações causadas para o pleno funcionamento de seus corpos são relativizadas. A tentativa de desconstruir a dicotomia homem-mulher até mesmo em um campo no qual ela se expressa tão obviamente quanto a biologia, reflete as investidas ainda mais incisivas das feministas igualitárias em efetuar a destruição das noções de feminilidade e masculinidade no campo social e cultural. Sendo assim, entre os objetivos mais arduamente perseguidos por estes grupos está o completo aniquilamento de tudo o que se define por mulher, bem como aquilo que se define por homem, até que estas duas palavras não signifiquem mais nada. Ora, por que deveríamos chamar quem está em guerra contra tudo o que é de fato feminino de “feminista”?!

Apesar de muitas vezes estas feministas igualitárias serem confundidas com “as feministas” ou até mesmo com “as mulheres”, elas não são as porta-vozes exclusivas nem do feminismo, muito menos das lutas pelos direitos das mulheres. O movimento sufragista, por exemplo, precede em muito às formulações que consolidariam o feminismo igualitário e teve o apoio de muitas mulheres que mais tarde se oporiam aos rumos que o feminismo estava tomando neste sentido.

Atualmente, “feminismo” é um termo em disputa e tem ganhado os sentidos mais variados ao longo das últimas décadas. Como oposição frontal ao feminismo igualitário, temos o feminismo diferencialista. Este tipo de feminismo manifesta-se em favor das diferenças essenciais entre homens e mulheres, postulando a valorização do feminino, ao invés de sua destruição. A partir desta abordagem, possibilidades completamente diversas podem ser trabalhadas para a atuação feminina, nas quais as diferenças naturais e culturais entre homens e mulheres sejam pelo viés da complementaridade, e não da rivalidade. Não se trata de pregar a submissão da mulher ou de ir contra quaisquer direitos políticos e trabalhistas das mulheres; muito pelo contrário, a ideia é buscar conquistas que reflitam e respeitem a vivência feminina enquanto tal, não só defendendo salários justos para as que trabalham fora, mas também a dignidade da mulher na sociedade enquanto mãe e dona de casa, atividades sem as quais a própria continuidade de nosso modo de vida ficaria comprometida. A questão não é mais sobre colocar um dos dois sexos como o oprimido em absoluto, mas buscar um plano no qual homens e mulheres vejam-se como partes igualmente importantes de um todo maior do que eles mesmos, segundo uma visão holística, e colaborem na consolidação de uma sociedade onde ambos possam se desenvolver plenamente, cultivando assim feminilidade e masculinidade como riquezas.

Entende-se que tal projeto jamais se concretizaria nos marcos do sistema liberal atual, no qual prevalece um individualismo cada vez mais exacerbado, o consumismo é estimulado, assim como a mercantilização de corpos, enfim, em um sistema no qual a desumanização avança a passos largos. A nova proposta de um feminismo diferencialista como entendido aqui, passa necessariamente pelo combate a este sistema, para o qual somente o feminismo igualitário pode ser conveniente. Não é à toa que as teorias igualitaristas citadas anteriormente chegaram à preeminência em órgãos governamentais de países ocidentais e na ONU com o apoio de Fundações como Ford e MacArhtur, entre outros grandes grupos capitalistas. Afinal, os senhores que os controlam não tem o menor interesse em ver homens e mulheres unidos lutando por sua dignidade.

Além disso, um feminismo diferencialista, respeitando as diferenças entre os sexos, logicamente respeitaria também as diferenças entre os povos, opondo-se ao internacionalismo universalista de capitalistas e feministas igualitárias e prezando pela autodeterminação e soberania das nações, para que estas possam dispor livremente, de acordo com seus valores e cultura próprios, de sua feminilidade e masculinidade.

Contra as práticas aviltantes dos grupos “feministas” favoráveis à ideologia de gênero, certos grupos de mulheres militantes pelo mundo já vêm adotando o ponto de vista diferencialista aqui descrito, muito embora alguns destes coletivos rejeitem completamente o termo “feminismo”, por considerá-lo irremediavelmente maculado, e definam-se como “antifeministas”.  Podemos citar entre estas divergentes: as mulheres católicas do chamado “Novo Feminismo”, que priorizam a maternidade como elemento principal da essência feminina; as mulheres islâmicas mobilizadas em rejeição ao FEMEN para afirmar sua identidade e capacidade de lutar por seus direitos segundo seus próprios caminhos; as indianas eco-feministas que se opõem ao controle das empresas multinacionais sobre a agricultura tradicional e pedem penas severas aos estupradores; as francesas do Les Antigones; as espanholas do Circulo Atenea; as mexicanas zapatistas; as argentinas e venezuelanas do Artemisas; nós, brasileiras do Matria; entre outras. A declaração de Katerina Tarnovska, ucraniana campeã mundial de kickboxing e fundadora de uma arte marcial especialmente voltada às mulheres (a Asgarda), pode evidenciar o que faz as mulheres se voltarem a essa versão de feminismo: “Se o feminismo visa defender a posição da mulher na sociedade, então sou feminista. Mas se o feminismo significa que as mulheres são os seres mais fortes e que devem se voltar contra os homens, então não, não sou feminista. Acredito na ordem natural das coisas”. Cabe lembrar, por fim, que o feminismo diferencialista não está em um estágio concluso e definitivo, e que a reverência dessa ideia para com as peculiaridades abarca inúmeras possibilidades e sugestões.

Lutadora da Asgarda, uma arte marcial feminina

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